A semana foi marcada pelo avanço do frio sobre a metade sul do Brasil e pela chuva persistente no extremo norte do país. A massa de ar polar mais intensa de 2026 até o momento avançou pelo Sul durante o último fim de semana, alcançou áreas do Sudeste e Centro-Oeste, com registros de geada, e ainda provocou friagem em pontos da Região Norte.
Na Serra Catarinense, o sistema trouxe os primeiros episódios de precipitação invernal do ano, com registros de neve, chuva congelada e sincelo entre a noite de sábado (9) e a madrugada de domingo (10). Imagens que circularam nas redes sociais mostraram flocos de neve em áreas mais altas de municípios como Bom Jardim da Serra, Urupema e Urubici. Apesar da ocorrência isolada e sem grande acumulação, o fenômeno marcou a primeira neve registrada em Santa Catarina em 2026.
O avanço do ar frio também favoreceu a formação de geada ampla em diversas áreas do Sul do país. Em Santa Catarina, cidades da Serra amanheceram cobertas por cristais de gelo, com vegetação congelada e paisagens esbranquiçadas. Urupema registrou mínimas entre -1°C e -3°C, enquanto Urubici teve temperaturas abaixo de zero.

Figura 1: maçã congelada na região de São Joaquim (SC). Fonte: Mycchel Legnaghi (São Joaquim Online).
Outro destaque do evento foi o registro de sincelo, fenômeno observado sob condições atmosféricas bastante específicas e típico das áreas mais elevadas da Região Sul. O sincelo ocorre quando gotículas de água super-resfriadas presentes no nevoeiro congelam ao entrar em contato com superfícies geladas, formando estruturas de gelo em árvores, cercas e torres. Diferentemente da geada, que se forma pelo congelamento do orvalho ou pela sublimação do vapor d’água sobre superfícies frias em noites de céu limpo e vento fraco, o sincelo depende da presença de nevoeiro e vento intenso associado ao frio.

Figura 2: área de gerada registrada. Limiares de intensidade: geada fraca (<= 4°C), geada moderada (< = 2° C) e geada forte (< – 0°(.
No Rio Grande do Sul, o sistema também provocou madrugadas congelantes, especialmente na Campanha, nos Campos de Cima da Serra e na Serra Gaúcha. Municípios como São José dos Ausentes, Bom Jesus, Vacaria e Cambará do Sul registraram geada e temperaturas próximas ou abaixo de 0°C nas baixadas entre os dias 10 e 11 de maio.
A onda de frio ainda derrubou as temperaturas em partes do Paraná, Mato Grosso do Sul e sul de Minas Gerais, além de provocar friagem em Rondônia, Acre e sul do Amazonas. O pico do frio ocorreu entre as madrugadas dos dias 10 e 11 de maio. Após esse período, a massa de ar polar começou a perder intensidade gradualmente.
Na manhã de segunda-feira (11), Maria Clara Sassaki, porta-voz da Tempo OK – Meteorologia, conversou com a jornalista Luara Castilho, do SBT News, sobre a frente fria que avançou pelo Sul do Brasil durante o fim de semana, provocando queda acentuada nas temperaturas e rajadas intensas de vento.
ZCIT mantém chuva intensa no Norte e Nordeste do Brasil
Enquanto todo o centro-sul do Brasil enfrentava manhãs com temperaturas abaixo da média, o extremo norte registrava dias de muita chuva.
A atuação persistente da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) manteve o tempo instável e favoreceu acumulados expressivos de chuva sobre áreas do Norte e do Nordeste do Brasil nos últimos dias. Entre 9 e 14 de maio, diversas estações meteorológicas do INMET e do CEMADEN registraram volumes elevados, especialmente entre o Amapá, norte do Pará, Maranhão e faixa litorânea do Nordeste.
A imagem de satélite registrada às 13h50 desta quarta-feira (14) mostra uma extensa faixa de nebulosidade associada à ZCIT posicionada próxima à costa norte do país. O sistema é caracterizado pelo encontro dos ventos alísios dos hemisférios Norte e Sul, favorecendo forte convergência de umidade, formação de nuvens carregadas e ocorrência frequente de chuva persistente.

Figura 3: chuva registrada hoje (14), às 13h50, pelas estações meteorológicas do INMET e do CEMADEN.
Os maiores acumulados observados no período se concentraram no norte do Pará, no leste do Rio Grande do Norte e da Paraíba, com mais de 200 mm em alguns pontos. No Maranhão, ocorreram registros acima de 110 mm em localidades monitoradas pelo CEMADEN, enquanto áreas do litoral do Ceará também apresentaram acumulados expressivos, superiores a 50 mm em determinados municípios.
A tendência é de que a Zona de Convergência Intertropical continue influenciando o tempo sobre a faixa norte do país nos próximos dias, mantendo a condição para pancadas frequentes e acumulados elevados principalmente entre o norte do Nordeste e a costa da Região Norte.
Retorno do El Niño pode impactar agricultura no Sul do Brasil
O possível retorno do El Niño acende um sinal de alerta para o setor agrícola no Sul do Brasil, com impactos esperados principalmente no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. O fenômeno, associado ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico, tende a alterar o padrão de chuvas na região.
Segundo a NOAA, a probabilidade de formação do El Niño é de 62% entre maio e julho de 2026, podendo chegar a 79% entre junho e agosto.
O principal efeito esperado é o aumento dos volumes de chuva ao longo da primavera, período que coincide com fases críticas do ciclo agrícola, como maturação e colheita de culturas de inverno. Esse excesso de precipitação pode comprometer a produtividade do trigo, da aveia e do azevém, além de favorecer o surgimento de doenças fúngicas, como a giberela.
A alta umidade também dificulta o manejo no campo, já que solos encharcados limitam a entrada de máquinas e aumentam o risco de perdas na colheita e de podridão radicular.
O tema foi abordado pelo meteorologista Celso Luís de Oliveira Filho, da Tempo OK – Meteorologia, em entrevista à jornalista Daniela Walzburiech, do Globo Rural.
Previsão de chuva para os próximos dias
Entre os dias 14 e 19 de maio, a atuação de frentes frias mantêm a chuva no Sul do Brasil, principalmente Santa Catarina e o Paraná. Neste período, há potencial de chuvas pontualmente volumosas também no sul de Mato Grosso do Sul.
No restante do estado, em Mato Grosso e também em São Paulo, volta a chover a partir de sexta-feira (15), mas com volumes baixos, devido ao avanço mais oceânico dos sistemas.
O extremo norte do país segue com chuva frequente por causa da ZCIT, e ainda há risco de transtornos pontuais devido ao solo encharcado. Algumas áreas do interior do Amazonas merecem atenção devido ao nível elevado dos rios, como é o caso da Bacia do Rio Amazonas nos pontos de Beruri, Manacapuru e Manaus, que estão na cota de alerta. Esse processo de enchente regular é típico desta época do ano nestas áreas, o que não deixa de ser um ponto de cuidado.
Na metade sul do Brasil, outra massa de ar frio avança durante o fim de semana, mas diferente da semana passada, desta vez o potencial para geadas é baixo e a amplitude do sistema é menor, não devendo atingir áreas do Centro-Oeste e do Norte.

Figura 4: chuva acumulada prevista (à esquerda), e temperatura mínima prevista (à direita). Fonte: modelos ECHRES e GFS00Z, respectivamente. Rodada: 14/05/2026.
Chuva e tardes frias retornam para a capital paulista a partir de amanhã
A cidade de São Paulo voltará a registrar chuva e temperaturas mais baixas a partir desta sexta-feira (15), após um breve período de tempo mais seco e tardes amenas na capital paulista. A mudança nas condições do tempo ocorre com a aproximação de áreas de instabilidade e o aumento da entrada de umidade sobre o estado.
De acordo com os meteorologistas da Tempo OK, a chuva deve retornar de forma isolada já entre a tarde e a noite de sexta-feira, com baixos acumulados, e persiste até a próxima segunda-feira. Além disso, o avanço da nebulosidade e da umidade deve impedir uma elevação mais significativa das temperaturas durante as tardes.
A máxima prevista para amanhã é algo em torno dos 19°C, com sensação de frio um pouco mais intenso entre a noite e a madrugada, devido ao excesso de umidade.

Figura 5: meteograma para sexta-feira (15) na cidade de São Paulo. Variáveis: chuva, raios e temperatura.
Na segunda pêntada, entre os dias 19 e 24 de maio, o período inicia com uma frente fria que avança na costa do SE e provoca chuva fraca nas bacias localizadas em Minas Gerais e, na noite do dia 19, já chega ao sul da Bahia.
Enquanto isso, um sistema de alta pressão deixa o tempo seco no Sul e Centro-Oeste do país. A chuva só ganha força entre os dias 23 e 24, com volumes elevados pontualmente nas bacias do Baixo Paraná e Paranapanema.
Já na madrugada do dia 24, a formação de uma baixa pressão na costa de São Paulo favorece chuvas em São Paulo, inclusive no Tietê e no alto Paraná.