Na semana passada, no artigo sobre o futuro da meteorologia, destaquei que o avanço das tecnologias de previsão esbarra em um ponto crítico: na nossa capacidade de observar a atmosfera.
Quero ser direto: sem dados, não há previsão. E a qualidade desses dados depende de caracterizarmos com precisão o estado atual da atmosfera, seja para alimentar modelos numéricos dinâmicos, seja para treinar algoritmos de inteligência artificial.
Quando falamos em observações, não se trata apenas de estações de superfície. São indispensáveis também satélites, radares e sensores embarcados em balões, drones, navios, bóias e aviões. Cada tipo de observação — por sensoriamento remoto ou medições in situ — é uma peça única desse quebra-cabeça global. E sempre há espaço (e urgência) para termos mais e melhores dados.

Imagem: Esquema mostra o processo desde a aquisição de dados até chegar na previsão do tempo. Fonte: Curso de Meteorologia Aplicada ao Setor Elétrico da Tempo OK.
Desafios e prioridades para o Brasil
Destaco duas necessidades urgentes que têm o potencial de elevar de forma substantiva nossas previsões meteorológicas:
1) Integração nacional da rede de observação
Não faz sentido expandir nossa rede de sensores sem garantir sua plena integração ao sistema da Organização Meteorológica Mundial, representada no Brasil pelo INMET. É inaceitável, por exemplo, que dezenas de radares meteorológicos, financiados com recursos públicos, ainda não compartilham seus dados.
Enquanto radares públicos deixam de compartilhar dados, milhares de estações privadas seguem operando de forma isolada, sem alimentar a rede oficial que sustenta os modelos de previsão de tempo e clima. Neste caso, a lacuna decorre sobretudo da ausência de mecanismos claros, padronizados e acessíveis de integração, e não de uma decisão de restrição pelo dono da medição.
Sem essa integração, perdemos a chance de transformar um imenso volume de dados já existente em valor real para a sociedade. É urgente avançar em coordenação, padronização e gestão centralizada, para que cada observação — pública ou privada — contribua para previsões mais confiáveis.
2) Aumento das medições em altitude
Muito se fala sobre satélites, radares e estações de superfície. Mas pouco se discute sobre a observação vertical da atmosfera, essencial para reduzir incertezas em fenômenos críticos. Em dias de céu claro, por exemplo, a incerteza na umidade em níveis médios e altos da atmosfera é altíssima — justamente onde crescem as tempestades. Radares exigem alvos como gotas ou partículas de gelo; satélites, por sua vez, apresentam incertezas consideráveis. A solução mais robusta são as radiossondas (balões ou drones meteorológicos com sensores), ainda raras no Brasil.
Temos cerca de 30 locais de lançamento, mas apenas metade em operação. Nos Estados Unidos, são mais de 90. Esse déficit compromete, por exemplo, a medição dos rios voadores, responsáveis por transportar a umidade da Amazônia para o Centro-Oeste, Sul e Sudeste.
Dependência externa e risco estratégico
Outro ponto crítico é nossa dependência de satélites estrangeiros. Cada vez que surge a ameaça de descontinuidade de missões, acende-se um alerta. Recentemente, dados meteorológicos provenientes de satélites militares norte-americanos foram restringidos. Agora circulam rumores de que as missões Terra e Aura da NASA podem ser encerradas prematuramente.
Essa vulnerabilidade mostra que o Brasil precisa avançar em capacidades próprias — ou, no mínimo, fortalecer acordos multilaterais que garantam acesso contínuo a essas informações.
A atmosfera não tem fronteiras. O ar que respiramos hoje esteve em outro país dias atrás. Por isso, a globalização das redes de observação é uma premissa básica.
Conclusão
Somente com uma rede acessível, robusta, integrada e verdadeiramente global, in situ e remota, poderemos evoluir de forma efetiva na previsão meteorológica — condição essencial para aumentar nossa resiliência climática diante da intensificação dos eventos extremos.