Brasil dividido: chuva em excesso de um lado, seca no outro na primavera | Previsão do Tempo - Tempo OK

Na primavera, o guarda-chuva e a preocupação com a falta de chuva podem fazer parte da rotina brasileira ao mesmo tempo. Enquanto algumas regiões devem lidar com temporais, alagamentos e dificuldades nas estradas, outras podem atravessar os próximos meses à espera de uma mudança no tempo.

A estação começa em 22 de setembro, às 21h05, pelo horário de Brasília, sob influência do El Niño, que deve alcançar sua maior intensidade durante o período. A previsão indica um cenário de contrastes entre regiões com chuva acima da média e áreas sujeitas a calor, estiagem e maior risco de queimadas.

“Podemos dividir o Brasil em dois cenários opostos durante a primavera: de um lado, regiões sob risco de enchentes e transtornos provocados pelo excesso de chuva; de outro, áreas sujeitas a estiagem grave e maior risco de queimadas”, explica Celso Oliveira, meteorologista da Tempo OK.

Sul terá chuva intensa e risco de transtornos

A chuva deve ficar acima da média no Sul, em São Paulo, no Mato Grosso do Sul e em parte de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. Em alguns municípios do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, os acumulados podem superar 1.000 milímetros ao longo dos 90 dias da estação, quase o dobro da média histórica de 650 milímetros.

O volume elevado não significa apenas mais dias chuvosos no calendário. A persistência das precipitações pode aumentar o risco de cheias, erosões, deslizamentos e interdições de rodovias. Vendavais e queda de granizo também podem acompanhar episódios de instabilidade, com reflexos sobre áreas urbanas, propriedades rurais e redes de transporte.

No Rio Grande do Sul e no litoral de Santa Catarina, a presença frequente de nuvens e a entrada de massas de ar frio devem manter as temperaturas próximas ou abaixo da média. Em São Paulo, no Paraná e no Mato Grosso do Sul, ainda podem ocorrer dias frios em outubro e novembro, mas o calor tende a ganhar força a partir de dezembro.

Norte e Nordeste enfrentam o outro lado do cenário

A previsão indica chuva abaixo da média em toda a Região Norte e em todo o Nordeste, além de Mato Grosso, Goiás, Espírito Santo e das áreas norte de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. Pará e Amazonas aparecem como os estados com o quadro mais crítico ao longo da primavera.

Em Manaus, o acumulado de chuva pode não ultrapassar 100 milímetros durante a estação, menos da metade do volume esperado para o período. A combinação entre pouca chuva e menor cobertura de nuvens favorece temperaturas acima da média em boa parte do Norte e do Centro-Oeste.

Entre o Pará e o Amazonas, as temperaturas podem ficar até 5°C acima da média da primavera. O calor persistente e a demora na regularização das chuvas tendem a elevar o risco de queimadas, reduzir o nível dos rios e dificultar o transporte de pessoas e cargas. No campo, a irregularidade também pode atrasar o plantio nas áreas que dependem da volta das precipitações.

Chuva, reservatórios e os efeitos sobre a energia

A distribuição desigual da chuva também deve afetar o setor elétrico. Os volumes previstos para parte do Centro-Oeste e do Sul podem favorecer a geração hidrelétrica, especialmente em usinas como Itaipu. Isso não significa, porém, uma recuperação ampla dos reservatórios brasileiros.

O prognóstico é menos favorável para as bacias que concentram os principais reservatórios do Sistema Interligado Nacional. Com exceção da bacia do rio Grande, os volumes de chuva projetados podem não ser suficientes para promover uma recuperação significativa dos níveis de armazenamento.

“Esse cenário pode trazer impactos para a segurança energética em 2027, uma vez que parte relevante dos reservatórios poderá iniciar o próximo ano com níveis inferiores aos registrados em 2026”, alerta Celso Oliveira.

A primavera, portanto, não terá um único retrato para o país. Em uma mesma estação, o excesso de água poderá pressionar cidades, lavouras e estradas no Sul, enquanto a falta de chuva e o calor ampliam a vulnerabilidade de rios, florestas e comunidades no Norte. Para cada região, o desafio será acompanhar o cenário local e antecipar os efeitos que o clima pode provocar nas próximas semanas.