A primeira semana do outono no Brasil, iniciada após o Equinócio de Outono no dia 20 de março, tem surpreendido moradores de diversas regiões com temperaturas elevadas e sensação térmica típica dos meses de verão. Em vez de dias amenos, cidades do Sul e os estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul registraram máximas características do verão, como é o caso da capital paulista, que registrou temperaturas em torno dos 30°C (2°C acima da média climatológica) nos últimos dias.

Figura 1: temperatura máxima e anomalia de temperatura máxima registradas
O meteorologista da Tempo OK, Márcio Bueno, aponta a atuação de um sistema de alta pressão atmosférica, que dificulta a formação de nuvens e o avanço de frentes frias. Esse padrão favorece dias ensolarados, com pouca ventilação e calor persistente. Porém, vale destacar que o outono é uma estação de transição. Por isso, especialmente no início do período, é comum observar características típicas do verão, como temperaturas mais elevadas.

Figura 2: temperatura observada na segunda-feira (23), às 14h.
Ainda é esperado que pancadas de fim de tarde ainda ocorram nessas primeiras semanas de outono na região central do país, especialmente quando há combinação de altas temperaturas e maior disponibilidade de umidade na atmosfera, dando condições para o desenvolvimento de nuvens de tempestade.
Em Martinópolis (SP), a chuva forte registrada no início da semana causou pontos de alagamento, arrastou veículos e provocou deslizamentos de terra na estrada.
Em Bauru (SP), uma tempestade de curta duração atingiu a cidade na tarde desta quarta-feira (25). A chuva forte causou alagamentos e danos em avenidas importantes da cidade, como a avenida das Nações Unidas e a Comendador José da Silva Martha. A grande quantidade de água em um curto período de tempo causou problemas na tubulação, provocou enxurradas que arrastaram carros, motos e descolaram o asfalto.
De acordo com as estações do CEMADEN, o acumulado de chuva foi de 66 mm entre 17h30 e 18h10, uma taxa de precipitação de 120 mm por hora.
Em algumas regiões, as características do outono já começam a aparecer. Em Vitória (ES), a quinta-feira (26) amanheceu com uma camada de névoa no horizonte, na praia de Camburi, efeito da estabilidade atmosférica e a queda de temperatura durante a madrugada.

Figura 3: neblina formada no amanhecer desta quinta-feira (26), em Vitória (ES). Fonte: A Gazeta (ES). Foto: Eudenes (ES).
Impactos do tempo nas áreas agrícolas do Brasil
A safra de verão 2025/2026 no Rio Grande do Sul começou a ser colhida sob um cenário preocupante: a produtividade deve cair cerca de 7%, impactada principalmente pela estiagem e pelas altas temperaturas registradas ao longo do ciclo das lavouras.
Segundo estimativas da Emater-RS/Ascar, a produção total de grãos no estado deve atingir cerca de 32,8 milhões de toneladas, bem abaixo das 35,3 milhões inicialmente previstas. Isso representa uma perda de aproximadamente 2,5 milhões de toneladas. A redução é atribuída principalmente à falta de chuvas em momentos críticos do desenvolvimento das culturas, agravada por períodos de calor intenso.
A cultura mais afetada é a soja, principal produto agrícola do estado. A produção deve cair cerca de 11%, com forte impacto na produtividade das lavouras. Em algumas regiões, as perdas chegam a níveis ainda mais severos, com relatos de reduções expressivas durante o período reprodutivo da planta, fase essencial para a formação dos grãos.
Na última semana, a EMATER/RS divulgou que 37% da safra se encontra em fase de maturação e 56% ainda em fase floração + enchimento, ou seja, ainda há necessidade de chuva e irrigação.
Impacto nas demais culturas
Outras culturas também apresentam queda:
- Feijão (segunda safra): retração de até 28%
- Feijão (primeira safra): queda de cerca de 11%
- Arroz: redução próxima de 3%
Na contramão, o milho aparece como exceção, com leve aumento na produção, impulsionado pela ampliação da área plantada. (EMATER/RS)
Previsão de chuva continua para o Norte do Brasil nos próximos dias
Os próximos dias serão marcados por chuva concentrada no Norte, sustentada pela umidade da Amazônia. No Centro-Sul, o tempo fica mais firme, com pouca chuva e temperaturas elevadas. As frentes frias passam rápido pelo Sul sem gerar volumes relevantes e sem força suficiente para atingir o Sudeste e o Centro-Oeste.

Figura 4: acumulado de chuva previsto (à esquerda), e temperatura máxima prevista (à direita). Fonte: modelo ECHRES e GFS00Z, respectivamente. Rodada: 26/03/2026.
No fim de semana, a umidade do ar fica abaixo do ideal nos três estados do Sul, no interior de São Paulo e em Mato Grosso do Sul, com índices abaixo dos 30% nas horas mais quentes do dia. Na capital paulista e em Belo Horizonte, os valores devem ficar no limiar do crítico, com valores em torno dos 30%. Nessas condições o recomendado é evitar atividades físicas ao ar livre, manter a hidratação e usar o protetor solar.

Figura 5: umidade relativa do ar prevista. Fonte: Plataforma TOKview, modelo GFS. Rodada: 26/03/2026.
Entre os dias 31 de março e 05 de abril, a configuração atmosférica continua com o mesmo padrão, de chuvas frequentes sobre as regiões Norte e Nordeste, mantendo a chance de chuva mais forte nas usinas de Tucuruí e Belo Monte devido a atuação da Zona de Convergência Intertropical ( ZCIT). Já no Centro-Sul, o calor e o ar seco continuam predominando. Para as cabeceiras do Sudeste, a chance de chuva persiste, mas apenas em pancadas isoladas e irregulares durante a tarde, com foco no Alto Grande.