Chuvas intensas atingiram Belém no último fim de semana, acumulando mais de 150 milímetros nos últimos dias. O alto índice de precipitação provocou o transbordamento de rios e alagamentos em diversos bairros da capital e Região Metropolitana.
A chuva extrema registrada em Belém pode ser explicada pela atuação combinada de dois importantes sistemas meteorológicos. Um deles é a Zona de Convergência Intertropical, que neste período do ano costuma se posicionar mais ao sul, sobre a região Norte do Brasil, intensificando a formação de nuvens carregadas e favorecendo volumes elevados de precipitação por vários dias seguidos.
Além disso, a Oscilação de Madden-Julian (MJO) pode ter contribuído para reforçar esse cenário. Este distúrbio é um fenômeno atmosférico que atua nos trópicos e influencia a intensidade e a distribuição das chuvas em escalas de semanas a meses.
A MJO se caracteriza por uma área de chuvas intensas (fase ativa), que geralmente se forma sobre o Oceano Índico e se desloca lentamente para leste, em direção ao Pacífico. Essa fase é seguida por outra de menor atividade de chuva (fase suprimida), formando um padrão alternado. Esse ciclo pode se repetir a cada 30 a 60 dias, embora nem sempre de forma regular.
O fenômeno ocorre principalmente sobre regiões oceânicas quentes, com temperaturas acima de 28 °C, e é importante porque ajuda a prever períodos mais chuvosos ou mais secos nos trópicos e até influencia o clima em outras regiões do planeta.
A combinação desses fatores cria condições ideais para episódios de chuva volumosa em curto intervalo de tempo, como o observado na capital paraense, elevando o risco de alagamentos e transtornos urbanos.

Figura 1: acumulado de chuva na região de Belém (PA), registrado pelas estações INMET e CEMADEN. Fonte: Plataforma TOKview.
Salvador registra 138 mm
Em Salvador (BA), a chuva começou na quarta-feira (22). A estação do INMET registrou 138 mm entre ontem e hoje, o que causou pontos de alagamento e diversos transtornos na região.

Figura 2: acumulado de chuva entre os dias 19 a 23 de abril, registrado pela estação do INMET. Fonte: Plataforma TOKview.
Na costa leste do Nordeste, a chuva está relacionada aos ventos úmidos que sopram do mar em direção a costa. A previsão indica que a chuva deve continuar entre o Recôncavo Baiano e o Rio Grande do Norte até o fim desta semana. Na sexta-feira (24), o volume pode ser elevado.

Figura 3: previsão de chuva e ventos para a tarde de sexta-feira (24). Modelo ECHRES. Fonte: Plataforma TOKview.
Ar seco deixa temperaturas elevadas no interior do Brasil
Enquanto a faixa norte do país enfrenta chuvas volumosas, o centro-sul passa por um período de tempo seco e temperaturas acima da média. Na tarde da última quarta-feira (22), os termômetros passaram dos 30°C em vários municípios, enquanto a umidade relativa do ar ficou abaixo dos 30%. Essa condição ainda pode se repetir nos próximos dias

Figura 4: temperatura máxima registrada na tarde de quarta-feira (22), pelas estações do INMET e aeroportos. Fonte: Plataforma TOKview.
Na terça-feira (21), a porta-voz da Tempo OK – Meteorologia, Maria Clara Sassaki, conversou com o jornalista Lucas Carvalho, do SBT News, sobre o alerta de onda de calor em quatro estados brasileiros: Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul.
El Niño deve chegar mais cedo e acende alerta para o agronegócio
O El Niño deve chegar mais cedo, com início previsto entre maio e julho de 2026, segundo a NOAA (agência meteorológica dos EUA), e pode ter forte intensidade.
Na atualização mais recente, o fenômeno foi antecipado em relação à previsão anterior, que indicava início entre junho e agosto, ampliando sua influência já nos próximos meses e elevando os impactos potenciais para o agronegócio na América do Sul.
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, o que altera os padrões climáticos, especialmente de chuva e temperatura.
Para o agro, os impactos tendem a ser significativos:
- Sul do Brasil: aumento das chuvas pode prejudicar culturas como o trigo e dificultar a colheita de cana-de-açúcar e do milho safrinha.
- Sudeste e Centro-Oeste: temperaturas mais elevadas e tempo seco aumentam o risco de queimadas e de estresse hídrico.
- Milho safrinha: áreas com plantio tardio podem ser mais afetadas pela redução das chuvas e por ondas de calor.
Apesar da possibilidade de um evento mais intenso, os efeitos não são lineares e dependem da interação com outros fatores climáticos.
O meteorologista da Tempo OK – Meteorologia, Celso Luís de Oliveira Filho, analisou esse cenário e seus possíveis desdobramentos para o agronegócio em artigo publicado no The AgriBiz.
Previsão de mais chuva no Sul e tempo firme na região central
A chuva segue concentrada no Norte do país, mas o destaque agora também fica para o subsistema Sul, onde os volumes devem ser mais expressivos ao longo dos próximos dias. Na área central, o tempo será de poucas nuvens, baixa possibilidade de chuva no interior e calor persistente, devido a atuação de uma área de alta pressão anômala, que dificulta a formação da nebulosidade.

Figura 5: acumulado de chuva prevista (à esquerda), e temperatura máxima prevista (à direita). Fonte: modelos. ECHRES e GFS00Z, respectivamente. Rodada: 16/04/2026.
Entre os dias 28 de abril e 03 de maio, o cenário atmosférico é propício às chuvas volumosas nas principais bacias do Sul, em função da propagação de transientes frequentes. O período inicia frio no Rio Grande do Sul, mas aos poucos as temperaturas sobem, embora mantendo-se amena nesse estado e em Santa Catarina. Há chance de chuva moderada no Baixo Paraná, mas nas demais bacias do Sudeste ainda persiste a condição mais seca e quente, devido a alta anômala. A ZCIT continua provocando pancadas constantes e irregulares, que seguem prejudicando as energias eólica e solar do extremo norte das regiões Norte e Nordeste.