Durante os meses do verão de 2025/2026, a circulação atmosférica na América do Sul deverá apresentar mudanças importantes, com impactos diretos sobre o regime de chuvas no Brasil. O fortalecimento de sistemas de alta pressão ao longo da estação, especialmente em médios e altos níveis da atmosfera, favorece o aquecimento intenso da superfície continental.
Um dos principais fatores para esse cenário é o posicionamento dos ventos em altos níveis da atmosfera, conhecidos como jatos, que acabam limitando o avanço desses sistemas frontais sobre o continente. Esses sistemas passam a organizar os ventos de forma mais zonal, com escoamento predominante de oeste para leste. Como consequência, as frentes frias, que são um dos principais sistemas que provocam chuva organizada em grande parte do Brasil, se deslocam a partir do sul do continente e encontram maior dificuldade para avançar em direção ao interior do país.
O meteorologista Paulo Lombardi explica que ao invés de seguirem para áreas mais continentais, as frentes frias tendem a ser desviadas para o oceano Atlântico, acompanhando a circulação dos ventos em altitude. Os sistemas até conseguem se formar e avançar até o Sudeste, especialmente nos meses de janeiro e fevereiro, mas acabam sendo deslocados para o alto mar. Esse padrão favorece a ocorrência de chuvas mais significativas nas áreas litorâneas de São Paulo, enquanto o interior dos outros estados registra volumes mais baixos de precipitação.
Com a baixa nebulosidade e o predomínio de dias ensolarados, a temperatura sobe com mais facilidade, ficando acima da média. Além disso, como as frentes se deslocam para o oceano, as massa de ar frio que acompanham os sistemas também vão para o mar e não influenciam áreas continentais; completa o meteorologista.
Confira o esquema da circulação de ventos nos próximos meses
No interior do Nordeste, o fator que deve contribuir para a redução das chuvas é a atuação de Vórtices Ciclônicos de Altos Níveis (VCAN), que deve ficar posicionado mais para o interior do continente. Apesar de serem sistemas associados à circulação ciclônica em altitude, o VCAN tende a inibir a formação de nuvens em amplas áreas sob sua influência, favorecendo a subsidência do ar. Com isso, a maior parte da região afetada pelo sistema pode registrar tempo mais seco e volumes de chuva abaixo da média, com precipitações concentradas apenas em áreas periféricas ao vórtice.
No mês de março, período de transição gradual para o outono, que, por si só, já pode apresentar uma redução nas chuvas em relação aos meses anteriores, o cenário tende a ser reforçado pela atuação de um sistema de alta pressão anômala sobre a Região Sudeste. Esse fator contribui ainda mais para a manutenção do tempo seco. Nesse contexto, muitas frentes frias mal conseguem ultrapassar o Rio Grande do Sul, permanecendo restritas ao extremo sul do Brasil ou sendo rapidamente desviadas para o oceano.
Enquanto grande parte do país permanece sob a influência dessas condições de menor precipitação, algumas regiões podem registrar volumes de chuva acima da média. O extremo norte do Brasil é um exemplo, devido à atuação da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), que favorece a formação de nuvens e a ocorrência de chuvas mais frequentes. No Sul do país, a passagem recorrente de sistemas frontais também pode contribuir para períodos mais chuvosos, especialmente em janeiro.
Esse conjunto de fatores evidencia como a dinâmica dos ventos em altos níveis da atmosfera desempenha um papel fundamental no comportamento das frentes frias durante o verão e na distribuição das chuvas sobre o território brasileiro.