Durante uma corrida de Uber, conversando sobre meteorologia, o motorista me perguntou, animado: “Quem foi o meteorologista mais famoso da história?” Pensei em tantos nomes da ciência moderna, mas a resposta dele me pegou de surpresa: José do Egito.
E não é que faz sentido? Há milênios, o ser humano já tentava antecipar os períodos de vacas magras ou gordas. Interessante que, naquela época, o conceito de meteorologia ainda nem existia. A palavra só foi cunhada por Aristóteles, por volta de 350 a.C., em sua obra Meteorológica. Ali, ele buscava entender fenômenos “do alto” (meteōra), como o vento, a chuva e outros elementos suspensos no ar — uma abordagem ainda filosófica e qualitativa.
Evolução ao longo dos anos
Foram necessários mais de dois milênios para que a meteorologia deixasse de ser uma especulação filosófica e se consolidasse como uma ciência baseada na física. No século XIX, surgiram os primeiros esforços sistemáticos para entender a circulação atmosférica global, com contribuições marcantes de George Hadley e William Ferrel — cujos nomes hoje batizam duas das principais células de circulação tropical e temperada, respectivamente. Ainda nesse período, foram fundadas as primeiras instituições nacionais de meteorologia, estabelecendo as bases da meteorologia moderna:
- UK Met Office (1854)
- US Army Signal Corps (precursor do atual National Weather Service, criado em 1870)
- Météo-France (1878)
No Brasil, o embrião do atual Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) surgiu em 1909, como Serviço Meteorológico do Observatório Nacional.
A grande virada científica veio com os trabalhos do norueguês Vilhelm Bjerknes, no início do século XX. Ao aplicar as equações da dinâmica dos fluidos — os famosos Navier-Stokes — ele fundou a meteorologia dinâmica, tornando possível descrever matematicamente a formação de frentes e ciclones extratropicais que afetam os países nórdicos e todo o Hemisfério Norte.
Em 1922, o britânico Lewis Fry Richardson tentou, pela primeira vez, prever o tempo com base em equações físicas. Sem computadores, calculou à mão uma previsão de seis horas que levou semanas para ser concluída — e falhou. Ainda assim, ele antecipou o futuro da meteorologia: a previsão numérica.
Nos anos 1950, Jule Charney e John von Neumann retomaram essa ideia, agora com o supercomputador ENIAC. Pesando 27 toneladas, o ENIAC levou 24 horas para calcular uma previsão de 24 horas. Nascia a modelagem atmosférica digital.

ENIAC, primeiro computador eletrônico digital. Imagem: Reprodução do banco de imagens Shutterstock
Na década de 1960, Edward Lorenz deu um passo além. Ao rodar um modelo atmosférico simples, percebeu que pequenas variações nos dados iniciais levavam a resultados completamente distintos. Surgia o efeito borboleta — e com ele, a teoria do caos determinístico, trazendo os conceitos de previsão por conjunto e previsão probabilística.
A partir dos anos 1970, com o lançamento de satélites geoestacionários como o GOES, a meteorologia passou a monitorar a atmosfera em tempo real e com cobertura global, permitindo uma visão tridimensional e dinâmica do planeta. E no século XXI, com a evolução dos supercomputadores, surgiram modelos de alta resolução — capazes de simular desde frentes frias até tempestades locais e brisas marítimas.
Previsão do tempo hoje
Hoje, entramos em uma nova era: a da inteligência artificial aplicada à previsão do tempo. O desafio atual é avançar da modelagem atmosférica tradicional para a microescala, onde ocorrem a turbulência, a convecção profunda e a formação de nuvens — processos responsáveis por grande parte dos eventos extremos que desafiam a resiliência das cidades, das infraestruturas e da agricultura.

Exemplo de previsão do tempo moderna que mostram variáveis como raios e ventos. Fonte: Plataforma TOKview.
Vivemos um momento fascinante. A meteorologia, que começou com a observação dos céus e das estações, hoje se apoia em supercomputadores, sensores remotos, aprendizado de máquina e redes neurais. E segue cumprindo sua missão essencial: antecipar o futuro para proteger vidas, planejar o presente e inspirar decisões estratégicas.