As massas de ar frio que estão avançando em alguns períodos durante esta primavera têm derrubado as temperaturas em várias cidades do centro-sul, e a primeira pergunta que se faz é: Por que o frio ainda está persistindo em alguns dias?
Não é difícil andar pelas ruas de São Paulo, por exemplo, e ouvir as pessoas questionando o motivo do frio às vésperas de novembro. Mas afinal, o que está por trás dos picos de frio depois de um mês do final do inverno? Para tentar entender o motivo, os meteorologistas da Tempo OK se reuniram para analisar as condições atmosféricas e oceânicas que possam influenciar essa condição.
Analisando as temperaturas mínimas em São Paulo, registradas nos meses de outubro das últimas décadas, foi possível identificar os maiores picos de frio nas seguintes datas:
- 06/10/2014: 10,7°C
- 12/10/2010: 10,3°C
- 13/10/2010: 10,2°C
Na última segunda (20) e na terça-feira (21), os termômetros do Mirante de Santana, na Zona Norte da cidade, marcaram 10,8°C, sendo esta a menor temperatura para um dia de outubro desde 2014. Antes disso, em 2010, houve uma ocorrência semelhante.
Em 2010 já tínhamos um fenômeno La Niña bem configurado e forte em outubro (ele inclusive começou bem mais cedo que o usual), o que ajuda a justificar a maior probabilidade de massas de ar frio como aquela. Já em 2014, a condição era de neutralidade no Oceano Pacífico, caminhando inclusive para o início do El Niño mais forte da década. Aquele outubro em particular foi marcado por calor extremo em grande parte do país após o curto evento de frio. A capital paulista, por exemplo, teve seu recorde absoluto de máxima (37,8°C) no dia 17/10/2014, perdurando até os dias de hoje.
Já agora, em outubro de 2025, a temperatura da superfície do mar (TSM) do Pacífico Equatorial apresenta uma leve anomalia negativa, o que caracteriza uma condição de La Niña fraca. Porém essa condição não funciona muito bem para justificar as massas de ar frio mais intensas deste ano, já que ainda não há uma resposta clara da atmosfera ao Pacífico resfriado (não há acoplamento entre oceano e atmosfera). Com isso, outros oceanos e outros modos de variabilidade passam a dominar, como as oscilações intrasazonais.

Anomalia de temperatura da superfície do mar, no dia 21 de outubro de 2025. Fonte: NOAA.
O meteorologista Luiz Fernando afirma que:
Nos meses de primavera, uma grande candidata a explicar a ocorrência de picos de frio é Oscilação Antártica (AAO), que afeta a posição e a força dos ventos sobre a Antártica e consequentemente, das correntes de jato em altitude no centro-sul do Brasil. Os valores do índice da AAO ficaram predominantemente na fase negativa tanto em 2014 quanto agora em 2025, o que aumenta a chance de mais ondulação na dinâmica atmosférica em latitudes médias e altas, possibilitando o desprendimento de massas de ar mais frio dos polos e a entrada em latitudes tropicais.
Outro ponto que chama a atenção desde setembro é o posicionamento de uma forte alta pressão anômala no Oceano Atlântico Extratropical e Subtropical, que vem fortalecendo as altas pós-frontais e os ventos do quadrante sul (que são mais frios). Conseguimos observar um sinal dessa influência quando observamos os alísios mais fortes que o normal em praticamente todo o Nordeste do país desde meados de agosto, mesmo em se tratando de uma época em que é comum a ocorrência de ventos mais fortes.
Mesmo que a circulação atmosférica em altitude sugira maior subsidência sobre a América do Sul e Atlântico desde setembro (o que inclusive vem dificultando a ocorrência das chuvas da primavera em grande parte do Centro-Norte do país), a origem desta anomalia de alta pressão no Atlântico ainda é um pouco incerta. Além da possível influência da AAO, é provável que ela esteja respondendo a perturbações atmosféricas originadas entre os Oceanos Índico e Indo-Pacífico. Mas, para esta análise, será necessário um estudo mais detalhado.
Sendo assim, a La Niña fraca e recém estabelecida até o momento não mostra uma influência clara na intensidade do frio deste ano. E para te fazer pensar um pouco, outros dois pontos levantado pela equipe da Tempo OK são:
- Será que a sensação de frio nesta primavera não está maior porque as primaveras de 2023 e 2024 foram excessivamente quentes e com temperaturas históricas para a época? Será que o calor muito persistente entre fevereiro e março de 2025 também não está influenciando na nossa sensação de frio agora? A capital paulista, por exemplo, teve vinte e seis meses seguidos (abril/2023 a junho/2025) com temperaturas ou dentro da média ou acima, com vários casos de recordes históricos de temperaturas máximas absolutas.
- Será que os eventos de frio não estão ganhando um certo “destaque exagerado” nesse ano de 2025? Esse questionamento é válido porque, mesmo com a ocorrência de picos de frio bastante relevantes e que precisam ser evidenciados, eles ainda estão alternando com fortes eventos de calor, mesmo que sejam mais curtos e menos intensos que os observados nos dois últimos anos ou em 2020, por exemplo. Além disso, quando olhamos para o Sudeste/Centro-Oeste, enquanto as temperaturas baixas batem “recordes” quase sempre válidos para os últimos dez a vinte anos, os eventos de calor entre 2023 e o início de 2025 quebraram recordes de oitenta a até mais de cem anos de dados.