Há quem ainda guarde o cobertor mais grosso todo mês de junho, por garantia. Há quem reclame do casaco que não sai do armário. Há quem jure que “não faz mais aquele friozinho de antigamente” e passe o inverno inteiro repetindo essa frase para qualquer pessoa disposta a ouvir. Entre uma conversa e outra sobre o clima, uma pergunta específica vem se tornando cada vez mais comum nas rodas de conversa e nas redes sociais: será que o inverno realmente mudou, ou é só a memória pregando peças? Os registros meteorológicos das últimas décadas dão uma resposta bastante clara para essa dúvida.
Menos frio, mais recorde
Levantamentos do INMET e de centros climáticos internacionais mostram uma curva de temperatura em ascensão constante desde os anos 1980. O observatório europeu Copernicus tem registrado, ano após ano, os invernos mais quentes já contabilizados na série histórica. No Brasil, o retrato é parecido: em 2023, quatro em cada dez capitais brasileiras enfrentaram o inverno mais quente de sua história, com termômetros passando dos 30°C em pleno julho, mês que costuma concentrar as temperaturas mais baixas do ano. Em Porto Alegre, por exemplo, a última sexta-feira (17) teve recorde de temperatura máxima para um mês de julho, com 33,3°C na estação Jardim Botânico (INMET).
A explicação não está isolada em um único fator. Ela combina o aquecimento global, alterações na circulação atmosférica e o efeito das grandes cidades, onde concreto e asfalto retêm calor.
O inverno não desapareceu, ele mudou de intensidade
A meteorologista Kerollyn Andrzejewski, da Tempo OK, acompanha de perto a movimentação das massas de ar no país e ajuda a entender esse fenômeno.
“As frentes frias continuam chegando, mas a intensidade das massas de ar frio têm sido menor e isso faz com que os termômetros não fiquem tão baixos quando estes sistemas atuam. É um processo que já aparece de forma clara quando comparamos as médias de hoje com as de décadas anteriores”, explica.
Segundo a meteorologista, esse enfraquecimento das massas de ar frio não elimina o risco de frio intenso pontual, já que a sazonalidade ainda é um fator determinante para as condições do tempo.
Por que ainda faz frio de vez em quando?
Um estudo publicado na revista científica Nature apontou queda progressiva nos acúmulos de neve no Hemisfério Norte desde os anos 1980, reforçando a tendência de aquecimento das estações frias em escala global. Ainda assim, o planeta mais quente na média não significa ausência de frio extremo.
“Quando o vórtice polar se desestabiliza, massas de ar geladas escapam para latitudes mais baixas e provocam ondas de frio intensas, mesmo em um cenário de aquecimento geral. É esse contraste que confunde a percepção das pessoas: um julho com uma semana de frio cortante convive, no balanço do mês, com uma temperatura média mais alta”, pontua Kerollyn.
O que isso muda na prática
Entender essa dinâmica vai além da curiosidade climática. Para setores como agricultura, energia e gestão de riscos urbanos, saber que o inverno tende a ser mais curto e irregular, intercalando dias muito quentes com ondas de frio pontuais, é informação estratégica. Monitorar o comportamento atmosférico com antecedência ajuda a antecipar geadas tardias, ondas de calor fora de época e outros extremos que passaram a fazer parte do novo normal das estações frias no Brasil.