Pacífico mais quente, clima imprevisível: o que esperar do El Niño em 2026 | Previsão do Tempo - Tempo OK

Quando uma torneira permanece aberta por tempo demais, a água começa a ocupar espaços que antes estavam secos. Na atmosfera, algo parecido acontece com a energia acumulada no Oceano Pacífico: o aquecimento das águas altera a circulação dos ventos e reorganiza a distribuição das chuvas em várias partes do planeta.

O responsável por esse movimento é o El Niño, que voltou a se configurar em 2026. As previsões oficiais indicam alta probabilidade de que o evento alcance intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão, com anomalias superiores a 2°C na temperatura da superfície do Pacífico Equatorial.

“Quando o El Niño se intensifica, ele não produz o mesmo efeito em todos os lugares. Ele modifica a circulação atmosférica e pode favorecer excesso de chuva em uma região, enquanto aumenta o calor e reduz a precipitação em outra”, explica Kerollyn Andrzejewski, meteorologista da Tempo OK.

A confirmação de um episódio muito forte não significa, porém, que todas as áreas enfrentarão os mesmos efeitos: a resposta atmosférica depende da época do ano, da circulação atmosférica e da presença de outros sistemas capazes de reforçar ou amenizar a chuva e o calor.

Como o El Niño impacta o clima

O fenômeno ocorre quando as águas superficiais do Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal por um período prolongado. Esse aquecimento interfere nos ventos e altera o transporte de umidade e a formação de sistemas de chuva em diferentes regiões.

Órgãos oficiais, como o NOAA, apontam probabilidade superior a 90% de que o episódio se mantenha ativo até pelo menos o início de 2027, com boas chances de classificação como muito forte já entre a primavera e o verão — categoria atribuída quando o desvio de temperatura no Pacífico Equatorial alcança ou ultrapassa 2°C. A mesma probabilidade é estimada para o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026-2027.

O cenário exige atenção porque essa atuação ocorre em um contexto de aquecimento global. As mudanças climáticas não são causadas pelo El Niño, mas podem elevar a temperatura de base e intensificar extremos como ondas de calor, secas e temporais.

O que o acontecimento de 2023 ensina para 2026

O episódio que atuou a partir de junho de 2023 chegou à categoria forte e deixou marcas distintas pelo país. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia, o Sul registrou chuvas acima da média, enquanto partes do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste tiveram precipitações próximas ou abaixo do normal, com temperaturas também acima da média em grande parte do território nacional.

Os efeitos mais evidentes apareceram desde setembro: o Sul enfrentou temporais e cheias, enquanto a parte central do país teve atraso no estabelecimento das chuvas e algumas áreas registraram ondas de calor. Na agricultura, a combinação entre estiagem, altas temperaturas e excesso hídrico provocou perdas e atrasos no calendário de produção.

Para 2026, o cenário aponta uma possibilidade semelhante de contrastes regionais, mas com diferenças importantes: chuva acima da média no Sul e precipitação abaixo do normal no centro-norte do país, principalmente a partir de novembro, acompanhada de temperaturas elevadas e maior risco de queimadas. A intensidade e a duração de cada impacto dependerão da interação com outros sistemas atmosféricos.

Impactos esperados nas regiões brasileiras

No Sul, a maior frequência de chuva pode elevar o risco de temporais, cheias de rios, alagamentos e deslizamentos, especialmente quando o solo já estiver úmido. Ao mesmo tempo, o excesso de precipitação pode dificultar a entrada de máquinas no campo, atrasar operações agrícolas e favorecer doenças nas lavouras.

No Norte e no Nordeste, o padrão tende a ser mais seco e quente em diferentes períodos. Na Amazônia, a redução das chuvas pode baixar gradualmente os níveis dos rios, afetar a navegação e o abastecimento e deixar a vegetação mais vulnerável ao fogo. Já no Nordeste, a menor duração da estação chuvosa pode pressionar reservatórios e atividades agrícolas dependentes da chuva.

No Centro-Oeste e no Sudeste, o calor acima da média e a irregularidade das chuvas podem prolongar o período seco, principalmente no auge da estação chuvosa, aumentar a demanda por água e energia e dificultar o planejamento do plantio e do manejo. O risco de incêndios também cresce quando altas temperaturas, baixa umidade e vegetação seca persistem por vários dias.

“Os episódios de 2023 e 2015 mostram que a intensidade precisa ser analisada junto com as condições de cada região. Para 2026, o ponto central será entender quando a chuva chega, quanto tempo permanece e quais áreas já estarão mais vulneráveis ao excesso ou à falta de água“, pontua Kerollyn.

O El Niño muito forte não determina sozinho o tempo de cada cidade, mas aumenta a probabilidade de determinados padrões climáticos. Por isso, sua evolução deve ser acompanhada em conjunto com as previsões de curto e médio prazo, principalmente em atividades expostas ao tempo e em regiões sujeitas a extremos.