O comportamento dos oceanos tem influência direta sobre o clima em diferentes partes do planeta e, no Brasil, poucos fenômenos conseguem alterar tanto os padrões de temperatura e chuva quanto o El Niño. Associado ao aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, o fenômeno costuma modificar a circulação atmosférica global e provocar impactos relevantes em setores coma energia, agricultura, infraestrutura e recursos hídricos.
Após um curto período de neutralidade, os modelos meteorológicos passaram a indicar uma alta probabilidade de formação do El Niño ao longo dos próximos meses. Mais do que o retorno do fenômeno, o que chama atenção da comunidade meteorológica é a possibilidade de um evento de forte intensidade, capaz de intensificar os efeitos clássicos do fenômeno no Brasil entre o inverno e a primavera de 2026.
Na prática, o termo Super El Niño é utilizado quando o aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial ultrapassa a marca de 2°C acima da média climatológica.
De acordo com Mateus Nunes, meteorologista da Tempo OK, os modelos climáticos vêm indicando um aquecimento consistente e acelerado do oceano desde abril.
“Os modelos atuais mostram um aquecimento oceânico persistente, com potencial de fortalecimento gradual ao longo do inverno e da primavera. Isso aumenta a probabilidade deste El Niño se tornar o principal modulador climático do segundo semestre de 2026”, explica.
O que muda com um El Niño forte?
Os impactos do El Niño variam de acordo com sua intensidade e interação com outros sistemas atmosféricos. Em eventos mais fortes, o fenômeno tende a impor padrões climáticos mais intensos.
No Brasil, os efeitos clássicos incluem aumento das chuvas na Região Sul, irregularidade ou redução das precipitações no Norte e Nordeste e períodos mais prolongados de calor sobre parte do Centro-Oeste e Sudeste.
“Um El Niño forte costuma deixar as temperaturas acima da média histórica em grande parte do Centro e Norte do Brasil. Ao mesmo tempo, favorece chuvas persistentes no Sul e períodos mais secos sobre áreas do Norte e Nordeste”, destaca Nunes.
O meteorologista explica que um dos principais sinais atmosféricos associados ao fenômeno já começou a aparecer em 2026: o enfraquecimento dos ventos alísios combinado ao aquecimento das águas superficiais do Pacífico.
Impactos para o setor elétrico
Além das mudanças no padrão atmosférico, a evolução do El Niño também pode gerar reflexos importantes para o setor elétrico brasileiro.
Com a expectativa de temperaturas acima da média em parte do país, a tendência é de aumento da demanda por energia elétrica, especialmente no Sudeste e no Centro-Oeste.
Ao mesmo tempo, o excesso de chuva no Sul pode alterar a dinâmica hidrológica e o comportamento dos preços da energia.
O subsistema Sul tende a ganhar maior relevância nesse cenário devido às características do seu parque hidrelétrico, formado majoritariamente por usinas a fio d’água, que respondem rapidamente às variações de vazão.
“O aumento das chuvas no Sul pode aliviar parte da pressão sobre os preços da energia. Ainda assim, o cenário seguirá dependente de fatores como armazenamento no Sudeste, despacho térmico, comportamento da carga e restrições operativas do sistema”, afirma o meteorologista da Tempo OK.
Nesse contexto, o intercâmbio energético pode se tornar ainda mais estratégico ao longo do segundo semestre.
Agricultura também entra no radar
O setor agrícola está entre os mais sensíveis aos impactos do El Niño. Em eventos fortes, os extremos climáticos tendem a afetar diretamente o calendário de plantio, o desenvolvimento das lavouras e a produtividade das culturas.
No Sul, o excesso de chuva pode comprometer culturas de inverno, como trigo e cevada, além de dificultar operações no campo.
Já no Centro-Norte do Brasil, o calor persistente e a irregularidade das chuvas podem atrasar o plantio e prejudicar o desenvolvimento inicial da safra de verão.
“Existe risco elevado de impactos na agricultura ainda em 2026, principalmente devido aos extremos de chuva no Sul e à tendência de seca e calor mais intenso sobre áreas centrais e do Norte do país”, ressalta o especialista.
Cenário ainda exige monitoramento
Apesar da sinalização dos modelos climáticos, a consolidação do El Niño ainda dependerá da evolução das condições oceânicas e atmosféricas nos próximos meses.
Atualmente, os modelos indicam cerca de 80% de probabilidade de formação do fenômeno neste trimestre, com possibilidade de fortalecimento gradual até o final do ano.
Ainda assim, outros fatores climáticos, como o comportamento do Oceano Atlântico, também podem influenciar os impactos observados no Brasil.
Por isso, o monitoramento contínuo das atualizações meteorológicas seguirá sendo essencial para reduzir incertezas e apoiar setores estratégicos diante de um cenário de alta variabilidade climática.