Não é nada incomum encontrar referências da vida real escondidas em filmes de ficção — esse tipo de detalhe é conhecido como “easter egg“. Mas o que poucos fãs da saga Harry Potter e de Animais Fantásticos e Onde Habitam perceberam é que, no final do filme, há um easter egg meteorológico digno de nota!
No final de Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016), os bruxos de Nova Iorque enfrentam uma missão delicada: apagar a memória dos “não-majs” (trouxas), para esquecerem tudo o que viram durante a batalha com o Obscurus (Credence). A solução vem de forma poética – uma forte chuva encantada, capaz de fazer todos esquecerem o ocorrido.
Como as memórias estavam mudando, as manchetes dos jornais também se transformaram e uma delas dizia: “Este é o novembro mais chuvoso da história.”


Esse detalhe parece apenas um elemento de continuidade… Mas pode não ser! O mágico é que essa manchete pode indicar ou ao menos referenciar um fato real.
Entre os dias 2 e 5 de novembro de 1927, o nordeste dos Estados Unidos foi atingido por um dos episódios de chuva mais extremos do século XX, um evento histórico analisado pela National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA). Conhecido como o Grande Dilúvio de Vermont (The Great Vermont Flood), o evento foi resultado de uma combinação atmosférica rara e explosiva. Tudo começou com um furacão tardio, no final da temporada, que se deslocou pela costa atlântica no início de novembro e depois subiu pelo vale do rio Connecticut. O sistema tropical trouxe inicialmente cerca de 75 a 100 mm de chuva sobre o sul da Nova Inglaterra.
Contudo, ao alcançar as altitudes mais elevadas de Vermont, o sistema ficou praticamente estacionário, bloqueado por duas áreas de alta pressão frias, uma a leste e outra a oeste.

Esse encontro criou uma zona quase estacionária de convergência, que manteve a chuva intensa por vários dias sobre o mesmo local. O resultado foi catastrófico: chuvas contínuas e volumosas, com acumulados superiores a 150 mm em grande parte daquela região e relatos de até 380 mm em alguns locais.
Antes do furacão, as chuvas significativas em outubro, que deixaram o solo saturado e reduziram a capacidade de infiltração, foram uma forçante da tragédia. Assim, a água da nova tempestade escoou rapidamente para os rios, provocando transbordamentos generalizados. De fato, outubro já havia sido um mês excepcionalmente úmido, registrando aproximadamente 150% da precipitação média. O resultado foi uma inundação generalizada ao longo do rio Connecticut, estendendo-se até a bacia do rio Merrimack para oeste e até o vale do lago Champlain. As estimativas mostram que a vazão do rio White em West Hartford, Vermont, foram da ordem de 4mil mˆ3/s. O nível do rio chegou a aproximadamente 10 m de altura, 5 m acima da cota de inundação.
O rio Winooski, um dos principais de Vermont, atingiu níveis mais de 6 metros acima da cota de inundação. Durante o evento, mais de 1.200 casas foram destruídas e centenas de pontes levadas pela força da água.
O evento marcou a história hidrometeorológica da Nova Inglaterra e se tornou um caso icônico de enchente induzida por sistemas frontais de longa duração.
Ou seja, a cena final do filme pode não ser apenas uma licença poética, mas sim, uma mensagem genial. A produção incorporou, de forma sutil, um evento real que aconteceu em novembro de 1927 à narrativa, unindo arte e ciência.
Mas vocês podem estar se perguntando o porquê do tom de “incerteza”. A resposta é simples: a história do filme se passa em novembro de 1926, um ano antes do evento real.
Será que essa manchete foi proposital e provavelmente consideraram que poucas pessoas perceberiam esse detalhe? Ou foi apenas uma coincidência digna do mundo mágico? De todo modo, é um easter egg que chama a atenção e isso jamais teria passado despercebido por pelo menos um meteorologista atento e fã da saga!
Se você quiser saber mais sobre o Dilúvio de Vermont, aqui estão algumas referências:
National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA)
Furação causou uma das piores inundações em Vermont
New England Flood of November 1927