O que eu percebo estando na operação da Tempo OK é que atmosfera brasileira já está perdendo todos os traços de inverno neste agosto.
A impressão que dá é que tudo está acontecendo rápido demais, assim como o aquecimento no Pacífico, que já tem anomalia de +1,8°C no Niño 3.4 pelo Relative Oceanic Niño Index (RONI).
Nos últimos 15 dias já teve aumento significativo do tempo severo no Sul, pancadas de chuva com cara de “termodinâmica” no Sudeste e Centro-Oeste (ainda que isoladas), alta frequência de transientes no Centro-Sul, entre outros “sinais”. Fora que teve cidade no centro do Brasil com temperatura de 38 a 42°C já na segunda semana do mês. Posso falar do sabiá-laranjeira já cantando nas madrugadas paulistanas também ou é exagero?
Os modelos já apontavam essa antecipação
Ok, nada impede que tudo isso ocorra em agosto, ainda mais com El Niño, mas não dá pra “ignorar” que há cada vez mais lembranças de primavera do que de inverno.
É legal comentar isso porque vai se confirmando uma tendência que vinha sendo apontada pelos modelos de longo prazo, como o CFS (norte-americano) e o ECMWF (europeu): as características típicas de primavera/início de período úmido teriam condições de se antecipar desta vez.
É por isso que os principais modelos de previsão subsazonal seguem indicando chuvas de acima a muito acima da média em grande parte do país em setembro, mas em particular entre as regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e até em parte do Nordeste.

Impactos para o setor elétrico em setembro
Pensando em setor elétrico, esta característica terá efeito benéfico para várias bacias hidrográficas, mas pode impor muitos desafios às renováveis. Grande parte do Nordeste pode ter déficit superior a 10% de recurso eólico neste mês de setembro, que ainda faz parte da safra de ventos. Já as solares sentirão os efeitos do aumento da nebulosidade e da frequência de tempestades severas.
Cada pré-frontal será um “maçarico” ligado na nossa cara e sofreremos para dormir nas noites quentes e úmidas, mas essas chuvas provavelmente vão conseguir fazer com que não soframos com ondas de calor tão prolongadas e severas como em 2023. Mesmo assim, as distribuidoras podem sentir os efeitos, e aquelas que não estiverem bem preparadas poderão ter problemas também com as interrupções constantes de energia elétrica. Afinal, ainda teremos vários vendavais, tempestades e outros eventos de tempo severo ocorrendo inclusive em áreas urbanas.
Por Paulo Lombardi